Bem vindo ao Via Consciência, um blog dedicado à comunicação conscienciológica, onde o ser humano em evolução é o principal tema de pesquisa.

Todos os textos neste blog são de autoria de Mário Luna Filho, salvo aqueles em que a fonte for mencionada. Críticas e comentários são bem vindos.

"Não acredite em nada que ler ou ouvir neste blog. Reflita. Tenha suas próprias opiniões e experiências."
Mostrando postagens com marcador Crônicas Fantásticas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Crônicas Fantásticas. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Crônicas Fantásticas - Episódio 4: Delmiro Voltou para Contar Como era Morrer

Delmiro Fonseca nunca gostou em vida daqueles que psicografavam mensagens do além. Sua opinião era de que o psicografista é um ser humano vulnerável a equivocos como qualquer outro e, portanto, passível de manipulação espiritual, do descontrole das próprias emoções e influenciável psicologicamente pela ansiedade alheia. Por isso, decidiu que, quando moresse, voltaria de corpo presente para contar como era morrer. E foi assim que, um mês após a sua morte, ele apareceu sentado ao pé da cama de sua irmã, Dalva, no meio da noite, com o corpo diáfano envolto numa nuvem espessa de ectoplasma. Ela não se assustou com a sua presença. Estava ainda na confulsão mental do sono quando aos poucos a imagem do irmão surgiu nitidamente diante dos seus olhos. Delmiro tinha uma expressão suave e serena. Dalva já havia tido com Delmiro algumas vezes desde que ele partiu, mas todas em projeções semilúcidas com imagens oníricas nas quais não sabia ao certo se o irmão estava feliz na outra dimensão ou resignado com a nova vida, pois ele lhe aparecia sempre ocupado, atendendo outras pessoas na antesala de algum lugar que lhe pareceu ser uma clínica para loucos. 

Quando viu que Dalva podia vê-lo com clareza, se desculpou pelo tom fantasmagórico que o ectoplasma lhe dava, mas que de outra forma não poderia se mostrar de corpo inteiro, como ele queria. A irmã entendeu e lhe tranquilizou dizendo que essas aparições não mais lhe assombravam desde o dia em que teve com o pai um encontro ali mesmo no quarto, para esclarecer alguns pormenores do testamento. Ele sabia do episódio e respondeu à irmã com um sorriso. Dalva perguntou qual seria o motivo da visista e Delmiro explicou que a intensão era aliviá-la dos tormentos filosóficos a respeito da vida e da morte. Os irmãos trocaram olhares saudosos e contiveram a ansiedade para não dar cabo da serenidade do encontro. A vantagem que o dom de ver e falar com os dessomados proporcionava era estender a vida para além dos seus limites físicos e fazer com que os que ficaram não sentissem saudades daqueles que partiram para outra dimensão, pois ambos os domínios existiam paralelamente e estavam interligados, como se ambas as realidades fossem uma só.

Quando dessomou, Delmiro Fonseca estava no seu segundo ano de profissão como médico psiquiátrico. Havia sido um estudante de medicina exemplar e conquistado a confiança dos professores de tal maneira que, logo que terminou o seu estágio no hospital da universidade, eles lhe conseguiram uma posição numa das clínicas de psiquiatria mais prestigiadas da cidade. Na família, Delmiro era o irmão conciliador entre os cinco que seus pais tiveram, um casal que construiu uma família numerosa, mas bem entrosada. Desde pequeno demonstrava talento para a medicina e mesmo antes de entrar na faculdade já sabia que queria se dedicar a cuidar dos mais pertubados. Em casa, quando alguém demonstrava perder as estribeiras, era ele quem apaziguava o torvelinho e restaurava a paz. Fez isso tantas vezes que passou a ser o conselheiro de todos, inclusive de muitos parentes, até alguns distantes, de modo que ninguém tomava uma decisão sem antes se consultar com ele, pois as suas sugestões eram sempre razoáveis.

Mas no recolhimento Delmiro vivia os seus momentos de confulsão mental e angústia, que ele resolvia calado, sem exacerbações e à base do recondionamento de suas energias vitais, o que nem sempre lhe era fácil, mas possível com o esforço da meditação. O seu controle emocional era bom o suficiente para que muitos o julgassem de outro mundo. Entre os colegas da faculdade, era sabido que Delmiro havia aterrissado neste planeta proveniente de uma galáxia distante, onde os nativos superaram quase totalmente as agonias das emoções e usavam o bom senso para recarrilhar a vida quando esta saía dos trilhos. Delmiro se defendia dizendo-se humano como todos, em serviço neste planeta-hospital, frágil como qualquer consciência intrafísica e vulnerável ao desengano como qualquer mortal. Em casa, a sua ligação com a irmã Dalva sempre fora especial. Desde pequenos passavam grande parte do dia juntos e dividiam as mesmas angústias sobre as perguntas irremediáveis da vida. Ela se tornou psicóloga não por talento, mas para agradar ao irmão. E o fez com tal convicção que a profissão terminou por conquistá-la. Delmiro fizera valer essa interação cósmica com a irmã para assentar as bases da sua aparição, com o ectoplasma que ela podia lhe ceder para o encontro de corpo presente.

Naquela noite, Dalva estava preparada para anotar tudo o que o irmão lhe narrasse, mas não pode conter a ansiedade para saber do outro mundo, pois essa sempre foi uma de suas curiosidades mais insondáveis. O mundo extrafísico lhe reservava grandes mistérios desde pequena, quando descobriu que podia ver e se comunicar com os espíritos, primeiro em sonhos, depois com o aprimoramento da projeção para além do corpo físico. Era ela quem servia de intermediário entre os dois mundos, quando alguém na família queria ter notícias daqueles que haviam partido. Mas os contatos só aconteciam quando Dalva estava em transe, de modo que nunca teve o controle da situação. As perguntas aos espíritos eram feitas quando ela sucumbia ao próprio esquecimento, dominada numa condição comatosa, em que não sabia o que perguntavam os parentes nem tampouco o que os espíritos da família respondiam. Quando retornava ao corpo físico, Dalva parecia despertar de um sono profundo, de maneira que suas dúvidas permaneciam insolúveis ao final desses encontros e seus mistérios intocáveis. Ela tampouco tinha com os espíritos com lucidez suficiente para se perceber viva. Na presença deles, Dalva se sentia do outro lado, como eles, e esquecia as diferenças que os separavam entre os dois mundos, interligados mas distintos. Servia mais como um receptáculo de mensagens espirituais. Chegou a estudar o assunto, mas nunca passou de uma simples mensageira entre esses universos.

Ali, diante do irmão, experimentava pela primeira vez uma lucidez decente, apesar das emoções fluírem sem que ela tivesse qualquer controle sobre elas. Esforçou-se para lembrar de suas dúvidas e questionamentos a fim de não desperdiçar mais uma oportunidade de ter com alguém do outro mundo uma conversa sensata e esclarecedora. A lucidez que conseguiu resgatar foi suficiente para saber se o irmão havia sofrido na passagem deste para o outro mundo, se havia túneis de luz como muitos atestavam, escadarias entre nuvens iluminadas por anjos com trombetas, guias espirituais vestidos de branco para indicar o caminho para a procedência extrafísica e parentes próximos recepcionando os recém dessomados. Queria enfim, saber se tudo que contavam na Terra condizia com a realidade vivida pelo irmão. Delmiro voltou a lhe sorrir ao saber das suas dúvidas. Enquanto na Terra, ele compartira com ela as mesmas perguntas, agora, ele parecia superior a elas, aos arroubos da imaturidade neste planeta-enfermaria. Mas não se mostrou arrogante. Seu semblante indicava a paz que devia ter encontrado no outro mundo, uma paz desconhecida dos vivos daqui.

Delmiro contou que o motivo da visista era também para aliviar a saudade e mitigar a angústia que ela sentia com a sua falta. Mas não poderia tirar todas as suas dúvidas como ela esperava porque, na verdade, elas eram apenas produtos da sua fantasia. Delmiro explicou que se Dalva queria saber do mundo extrafísico, ela atentasse para o mundo físico, pois este era um reflexo do que havia do outro lado. “Não deixamos de ser quem somos quando partimos daqui,” disse ele com sua voz diáfana. “Assim como não deixamos de fazer o que fazemos aqui, quando vivemos em outra dimensão. A diferença é que lá não convivemos com todos, apenas com os semelhantes, pois somos condicionados a nos relacionarmos apenas com aqueles de igual padrão evolutivo. As dimensões se equiparam e a vantagem da vida na Terra é justamente a de lidar com as diferenças. Para uma morte tranquila é preciso viver na dimensão intrafísica sem medo da morte; para conviver de maneira sadia é preciso escolher as boas amizades na Terra; para qualificar a sua vida do outro lado é preciso qualificar a vida por aqui; para sanar as angústias do corpo físico é preciso buscar a serenidade espiritual; para saber o que se faz lá é preciso ter consciência do que se faz aqui, pois somos uma única consciência e a vida não reparte existências e nem nos divide em dimensões.”

Depois disso, a neblina espessa de ectoplasma foi aos poucos se dissipando em torno de Delmiro e sua imagem se tornou difusa até perder-se de vista por completo. Dalva ficou imóvel, sentada na cama, observando o tênue rastro esbranquiçado deixado pelo irmão na penumbra do quarto. Mas, ali, ela não sentia mais o vazio e o abandono de espírito que a morte de Delmiro havia lhe causado, nem tampouco a inquietude dos seus quetionamentos. Seu corpo estremecia com descargas elétricas fugazes e percebia que as suas energias vibravam prazerosamentre. Experimentava um misto de saudade saciada e serenidade espiritual. Viveu aqueles minutos sem ser incomodada por qualquer emoção descontrolada, até que, sem perceber, mergulhou no sono que a levaria de volta ao mundo extrafísico.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Crônicas Fantásticas - Episódio 3: A Mulher que Só Conseguia se Ver Através de um Espelho

Lindalva Pedrosa nasceu numa família abastada do interior mineiro. Seu pai era fazendeiro conhecido e latifundiário de mão firme e boa estirpe. Sua mãe era uma resignada dona de casa, esposa dedicada e mãe incondicional, que cuidou de 14 filhos legítimos e 13 bastardos, deixados na porta da sua casa pelas amantes do marido. Em meio a uma prole tão numerosa e complexa, Lindalva nunca deixou de ter o melhor que se podia dar à uma criança. Destacava-se na escola por uma inteligência precocemente avançada e também por ser uma aluna exemplar. Demonstrava um senso de responsabilidade tão maduro para sua idade que muitos adultos tentavam copiá-lo. Concentrava-se no que fazia, sem desviar a atenção, até que a tarefa estivesse concluída, agendava seus afazeres ordenadamente e seguia rigorosamente um critério de prioridades, o mesmo que ensinava às suas bonecas quando dava vida a elas nas brincadeiras da tarde. Seus horários eram rígidos e seguidos sem atrasos nem subterfúgios. Tinha hora para tudo e o seu relógio biológico era tão pontual e incorruptível que funcionava pontualmente mesmo quando não era necessário, como levantar cedo nos fins de semana. Melhor assim, pensava Lindalva. Relógios biológicos não podem diferenciar as segundas-feiras dos sábados.

Todo esse esmero e precisão em tudo o que fazia fez de Lindalva Pedrosa uma criança com a convicção de que estava acima das vicissitudes humanas, de modo que a sua sociabilidade era apenas uma tênue expressão de sua vocação para a condescendência. Em seu universo interior, onde as idéias brotavam até da mais improvável inspiração e a lógica era usada com uma facilidade incompreensível para os adultos, Lindalva Pedrosa intelectualmente se bastava. As pessoas demandavam-lhe tempo e atenção, cuidado e paciência, o que nem sempre ela estava disposta a oferecer. A melhor companhia é a dos livros, dizia. Eles são os únicos que, de fato, podem me trazer alguma interrogação. Por falta de uma imagem que lhe interessasse fora da sua órbita pessoal, Lindalva era uma criança voltada para si mesma e não chegou a ser uma companhia prazerosa para qualquer um dos seus 27 irmãos e meio-irmãos. Era uma das meninas mais jovens da gigantesca prole encomendada por seus pais, mas nenhum desses rebentos que lhe chamavam de irmã conseguia alcançar o seu raciocínio ágil e o seu talento natural para as conclusões assertivas. De modo que, desde muito cedo, foi uma criança sempre ocupada nesse universo de portas fechadas no qual se meteu desde a mais tenra idade.

Na época em que rejeitava a própria família e esnobava os estranhos, Lindalva Pedrosa começou a demonstrar, mais assiduamente, traços incontestáveis de vaidade e egoísmo. Passava horas olhando-se no espelho e levantando discussões filosóficas sobre a necessidade de ser ela mesma. Ficou tão fascinada com as oportunidades que o seu universo interior oferecia e encantada com a magia de observar os detalhes das suas feições refletidas, que contraiu o estranho hábito de se ver apenas através de um espelho. Descobriu-se uma adolescente na frente de toda sorte de espelhos e acompanhou a transição de criança para mocinha vislumbrando com devoção o harmonioso processo do seu crescimento. A partir dali, passou a pedir espelhos nas datas em que se presenteava. Comprava-os, trocava-os por roupas usadas, negociava-os como podia, aumentando uma já volumosa coleção que ela espalhava pelo quarto como quadros nas paredes e porta-retratos sobre os móveis .

Cresceu entre esses incontáveis espelhos que refletiam a sua imagem a maior parte do dia. Tornou-se uma adolescente ainda mais reclusa do que fora quando criança e não fez mais amigos. Fechava-se em seu mundo particular e lá passava horas sem dar notícias ao mundo exterior, de modo que sua família se habituou a viver sem sua companhia e nem tê-la por perto. Da adolescente fascinada com seu próprio universo tornou-se uma mulher sem mundo exterior. Não chegou a casar-se, porque jamais encontrou seu marido num espelho. Sua dedicação a olhar a própria imagem se tornou tão obsessiva que, aos poucos, passou a não lembrar mais como ela era fora de um espelho.

Lindalva não sentia os efeitos da solidão, porque entre ela e um espelho não faltava ninguém. Achava-se tão bela e plenamente realizada, e era para si mesma alguém tão essencial e suficiente, que nenhum homem poderia amá-la de uma maneira que a convencesse que o casamento valeria à pena. Quando completou 30 anos, esqueceu que tinha uma família e foi morar no topo de uma serra longe da família. Descia apenas para comprar mantimentos e o fazia uma vez por semana, pois o mundo externo lhe era entediante. Lindalva envelheceu sozinha, refletida em vários espelhos da casa. Em todos os cômodos havia uma quantidade suficiente deles para refletir a sua imagem continuamente, de modo que ela não deixasse de se ver um só instante.

Muitos anos depois, quando portas e janelas da casa passaram a ficar abertas dia e noite, chamando a atenção dos poucos moradores da redondeza, os vizinhos resolveram averiguar o que se passava no interior daquela propriedade fantasma. Para a surpresa de todos, não encontraram ninguém lá dentro. A casa parecia ter sido abandonada há muito tempo. Os visitantes teriam ido embora intrigados se um deles não tivesse visto a tempo a imagem de Lindalva Pedrosa refletida em um dos espelhos do corredor. Estava desacordada, semi-nua, deitada no chão e não parecia respirar. Ao descobrirem ali aquela mulher inerte e sem vida, todos se precipitaram para socorrê-la, mas ficaram apavorados quando viram que não podiam tirá-la dali, pois Lindalva Pedrosa era apenas uma imagem no espelho, hermeticamente fechada num universo onde ninguém nunca soube como entrar.

sábado, 30 de outubro de 2010

Crônicas Fantásticas: Episódio 2 - O Homem que Não Tinha Conserto

Adamastor Moura fora uma criança que nascera com defeito. Seus pais haviam esperado nove anos para tê-lo, o que foi conseguido com muita obstinação e por meio de dietas draconianas e tratamentos médicos intermináveis. Sua mãe se submeteu ao suplício de viver à base de proteínas vegetais e grãos, reduziu os carboidratos refinados na sua rotina alimentar e descartou a ingestão de qualquer tipo de comida polisaturada e que contivesse gordura trans. Fez indução de ovulação, com injeções de hormônio aplicadas pelo médico da família, o que não lhe trouxe resultados, e pensou em inseminação artificial. Mas o marido foi prontamente contra a idéia de fazer by-pass nos preceitos ensinados por sua igreja, de modo que abandonaram a opção por completo antes mesmo de considerá-la sob algum ponto de vista.


Nem as rezas do pastor nos sermões dominicais de desobssessão, nem os chás curativos de uma avó indígena e tampouco as mandingas de uma mãe-de-santo da vizinhança pareciam surtir efeito e causar qualquer mudança no quadro de infértil produção da futura mãe de Adamastor e no destino do casal, aparentemente, malfadado a viver sem rebentos. “Por que vocês não tentam o PDG, um exame médico capaz de identificar embriões portadores de doenças,” sugerira alguém da família. “O sofrimento será menor se souberem que não podem gerar filhos saudáveis.” Porém, contrariando todos os prognósticos multireligiosos e os diagnósticos científicos da medicina, numa época de grave desengano e profunda desilusão, o casal por fim recebeu o resultado positivo de um exame de gravidez, realizado às pressas depois do primeiro enjoo desde que ela começou a enfrentar o martírio das privações alimentares e as imprevisões das visitas médicas quinzenais.

Sete meses mais tarde, a equipe médica deu luz a Adamastor. Mas o rebento nasceu com um defeito de fábrica e passou semanas na oficina da maternidade, esperando peças para o coração, dormitando num quadro clínico que exigia uma recalchutagem complicada e completa. E para piorar ainda mais, os técnicos não conseguiam avaliar com precisão a causa do mal funcionamento das suas artérias e o mantiveram em observação por um longo tempo, o que era possível sem custos, pois ao receberem a criança, seus pais optaram por pagar a diferença e ter uma garantia estendida de cinco anos. Aquele primeiro conserto não corresponderia, no entanto, nem a um terço dos problemas técnicos que Adamastor Moura viria a apresentar mais tarde. Depois de trocar algumas artérias logo na entrega do produto, a criança precisou mais tarde trocar algumas peças do braço ao cair de bicicleta. Para piorar, o acidente aconteceu dois dias depois do término da garantia de cinco anos, de modo que seus pais agora tiveram de desembolsar uma nota fabulosa para a oficina especializada naquele tipo de conserto, porque, como se não bastasse o transtorno de ficar sem usar a criança, as peças do braço tinham que ser importadas e isso levava algum tempo, pois o pedido tinha que ser feito online e as peças enviadas por correio num prazo de trinta dias. 

Os pais de Adamastor conviveram com vários outros problemas técnicos apresentados pelo filho na infância, trocando e atualizando tudo que era necessário. Todos os anos, faziam a revisão geral para seguirem com a licença do usuário em dia, até que a criança cresceu e assumiu seus próprios consertos. Mas Adamastor se tornou um adulto problemático. Seu desleixo causava transtornos de funcionamento e muitas peças que precisavam de reciclagens ficaram obsoletas e caíram em desuso. Tentou alguns relacionamentos, mas boa parte do seu mecanismo enferrujado não funcionava conforme prometido no ato da compra e todo o equipamento acabava sendo trocado por outro mais novo e mais atualizado. Foi aos poucos perdendo valor de mercado e se tornando uma mercadoria difícil de ser vendida, de modo que Adamastor não casou nem teve filhos, como era seu desejo. Esquecido em algum cômodo do seu apartamento, ou frequentemente jogado no sofá, ele não tardou a perder suas funções e enferrujar de vez. Sem reciclar suas peças mais débeis e trocar o que era preciso, ele foi aos poucos sendo esquecido por si mesmo e se tornou uma peça sem função. Quando o encontraram quatro meses mais tarde, não prestava mais para nada e foi levado para um antiquário, onde foi vendido como peça de antiguidade.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Crônicas Fantástica: Episódio 1 - A Viúva Cujo Marido Não Morreu

Dona Guilhermina perdeu o marido há 8 anos. Desde então se tornou um mulher de poucas palavras, triste, retraída, sorumbática e dissidente de si mesma, que encontrou no isolamento a sua maneira de viver sossegada a própria dor. Ao lado do único homem com quem viveu como esposa, ela havia completado 45 anos, no dia em que tentou se jogar na sepultura dele, para que não o deixassem lá sozinho. Seu amor sempre fora incondicional. Dedicou-se a ele como se nenhuma outra coisa no mundo lhe importasse mais. Com ele, teve cinco filhos, que ela gerou mais pelo forte lado paterno do marido do que por sua vocação materna.

Guilhermina Sobral fora uma criança que poucos a viram brincando sozinha. Estar consigo mesma lhe perturbava tanto que seus pais, a fim de conseguir companhia para a filha, impuseram que a empregada tivesse filhos pequenos, na idade de Guilhermina, para ser contratada. Quando estava sozinha, a criança não se bastava. Procurava distrair a atenção dos pais no que quer que estivessem fazendo, chamava amigas por telefone, gostava de perambular pela área social do prédio à procura de companhia e, em casa, sem os pais, importunava a empregada nos afazeres do trabalho, para que ela lhe desse atenção. Havia uma necessidade premente de estar com alguém, de modo que fazer amizades para Gulhermina sempre fora a sua habilidade mais natural.

O marido ela conheceu no colégio em que estudou os últimos anos do colegial. Tinha então o sonho de ser médica, mas quando finalmente começou a se relacionar com ele mais seriamente, abandonou seus sonhos para construir o de ser apenas sua esposa. Isso implicava trocar a carreira de médica pela de mulher do lar e nunca demonstrou arrependimento ou remorso com a decisão.  Ao casar-se, deixou os estudos na faculdade e passou a se aprimorar na arte de agradar o marido. Fez curso de culinária, corte e costura, organização sistemática do lar, lavagem a seco, pastelaria, orçamento familiar, massagem tailandesa e investiu o dinheiro dele numa imersão de três semanas em confeitaria, pois bolos, tortas e sobremesas em geral era uma das coisas que mais dava prazer a ele à mesa. Não poupou esforços para tornar seu marido um homem mais feliz dentro de casa.

Por outro lado, ele nunca deixou de prover o lar do sustento básico e criou os cinco filhos em boas escolas e com farta alimentação. Era um pai dedicado, que reservava uma parte do seu dia para estar de fato com as crianças. Nos fins de semana, ele mesmo as levava para passear, enquanto Guilhermina aproveitava para descansar das atribuiçõess da família. Mas, nas poucas horas em que ele ficava com as crianças, Gulhermina sentia-se só. O único momento em que ela aceitava bem a sua ausência era durante as horas em que ele estava no trabalho, pois ela mesma havia treinado a mente para superar a carência dele nesses momentos. Segundo ela, a sua vida se resumia a estar do lado dele e servi-lo. Nada mais. Não importava-lhe seus sonhos, objetivos e opiniões, desde que corroborassem com o que agradava a ele e com o que ele concordava. Atendia aos comandos do marido cegamente, sem nunca perguntar se podia questioná-los, pois acreditava que a opinião dele era suficiente para guiar sua vida.

Quando o marido morreu, o chão se abriu, o mundo perdeu o rumo e a vida o sentido. Gulhermina se resumiu a uma mulher abandonada e desgraçada, que nada mais significava além de um fardo para si mesma e sua existência caiu no limbo das lamentações. Evocava o falecido todos os dias, reclamava sua ausência, o seu próprio destino e nutria a esperança de reencontrá-lo no além. "Quero morrer para me encontrar contigo," dizia. Na tentativa de mantê-lo vivo, conservou intactos todos os álbuns da família em que havia fotos dele e do casal. Manteve o guarda-roupa dele fechado, com todas suas roupas guardadas como ele havia deixado, muitas ainda com o perfume de musk que ele usava, para que ela identificasse o cheiro dele impregnado no tecido. "Se pudesse teria o enterrado no quintal da nossa casa," considerava ela, "para que algo da tua matéria escapasse todos os dias da sepultura e atenuasse a minha carência." Durante os oitos anos de separação, Guilhermina não deixou um dia sequer de lembrar-se do falecido, de lamentar a sua morte e evocar a sua presença. Nem mesmo os filhos conseguiam penetrar no universo hermético no qual a mãe havia se metido desde a morte do marido.

Para Guilhermina, o marido não havia morrido e ela o manteve vivo o quanto pôde. Mas no dia em que sua filha chegou para uma visita e encontrou a mãe falando sozinha com o falecido pai, ela estremeceu, acreditando que ele havia ressuscitado ou que a sua morte tivesse sido um engano. O colóquio era tão atualizado que Guilhermina lhe cobrava coisas que não haviam acontecido na época em que ele morreu. A filha evitou entrar na casa para que pudesse ouvir um pouco mais aquela conversa assombrosa e tivesse a certeza de que o estado da mãe finalmente inspirava cuidados médicos. Foi o que aconteceu. O médico da família chegou no dia seguinte e receitou comprimidos para manter Guilhermina cedada a maior parte do dia. Junto com o médico, na semana seguinte, os filhos enviaram um parapsicólogo, que se dedicou a ouvir a viúva e suas estórias de solidão duas vezes na semana. Ao fim de um mês, ele havia coletado tantos dados importantes sobre a personalidade obscura de Gulhermina, que descobriu que ela falava a verdade e estava muto longe da loucura que os filhos afirmavam ter sucumbido a mãe. O falecido de fato perambulava pela casa há oito anos e vivia com a mulher como se nunca tivesse morrido, compartilhando as conversas do dia-a-dia e trazendo-lhe notícias do além. Contava-lhe sobre seus planos para quando ela morresse, sobre a mudança que a morte lhe causou, sobre sua própria saudade e o desconforto de não poder tocar a esposa como gostaria. Disse que há 8 anos sofria o mal da separação e que se recusava a encarar o éter sem a companhia da mulher e que, por isso, a esperava pacientemente do outro lado, para continuar o que haviam iniciado há 53 anos atrás, antes que fosse tarde demais e ambos morressem de amor e solidão. Mas Gulhermina não sabia disso, porque o parapsicólogo não lhe confessou o que percebia na atmosfera da casa. Para ela, o marido não havia ainda deixado esse mundo.