Há um sentimento anti-patriota no ar, uma vergonha estampada, uma malemolência de desesperança, uma agitação exarcebada, uma inquietude de insegurança, uma angústia de impotência, uma culpa velada, uma indignação de desrespeito, uma busca sôfrega por ar ou um estômago de aço inoxidável para engolir todas as mentiras, calar diante de todo esse despautério que se tornou esse país do abandono. Que esse povo resista mais uma vez, que o aprendizado lhe sirva, que a força lhe salve e o sonho alimente o que quer que ainda lhe chegue à vida.
Bem vindo ao Via Consciência, um blog dedicado à comunicação conscienciológica, onde o ser humano em evolução é o principal tema de pesquisa.
Todos os textos neste blog são de autoria de Mário Luna Filho, salvo aqueles em que a fonte for mencionada. Críticas e comentários são bem vindos.
"Não acredite em nada que ler ou ouvir neste blog. Reflita. Tenha suas próprias opiniões e experiências."
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domingo, 13 de dezembro de 2015
sábado, 12 de dezembro de 2015
A ERA DA REINVENÇÃO POPULAR (POLÍTICA)
Devemos ser lúcidos o suficiente para sabermos onde estamos, o que podemos esperar e o que devemos fazer. A Era do Ativismo Político acabou. Não há escolhas seguras, sem comprometimento com a antiética dos partidos, pois os sistemas estão corrompidos. Chegamos à Era do Kali Yuga (Idade do Vício) político. O povo brasileiro precisa se reinventar, assumir o seu papel com dignidade e recuperar os mecanismos de escolha do que chamamos de democracia. ...O que queremos para nós? Talvez tudo isso esteja acontecendo para o amuderecimento coletivo, aquele mesmo que acontece em períodos pós-guerra (os números são parecidos: mortes por arma de fogo, fome, miséria, desigualdade etc.). Sem ele não estaremos salvo da ganância imperartiva com que somos governados. Eis o momento do povo recuperar a dignidade e assumir o seu papel. Estamos afunilados nessa grande reciclagem coletiva e podemos tirar bom proveito disso com maturidade. Talvez isso seja uma utopia. Mas é o ativismo politico mais seguro.
domingo, 6 de dezembro de 2015
A RAIZ DA INTOLERÂNCIA COM O OCIDENTE (SOCIEDADE)
A civilização do planeta começa em três lugares, a Mesopotâmia é um deles; o Egito é um outro. Ambos encerram numa região limitada no oriente médio as principais religiões monoteístas. O islã foi a terceira grande religião, depois do judaísmo e o cristianismo. A fusão entre o cristianismo e o islamismo ocorre mais tarde de tal maneira que Adão, Moisés, Noé e Jesus Cristo foram inicialmente profetas islâmicos. A guerra de forças começa e aí surge o poderoso Império Persa, entram os gregos na disputa e o igualmente poderoso Império Romano, que acaba se partindo em dois, com o lado mais próximo do oriente médio resistindo bravamente. Mas, então, surge o Império Otomano, na Turquia, mas não com os turcos, e sim com os povos do norte asiático, liderados por Genghis Khan. O Império Otomano resiste na região por 600 anos, até a Primeira Guerra Mundial. Com o fim deste império, a Síria aparece no mapa pela primeira vez, assim como a Jordânia e o Iraque. Mas de onde saíram esses países? Em 1916, ocorre o Acordo de Sykes-Picot (por esse você não esperava!). Tal acordo tinha a palavra da Inglaterra e da França de que não invadiriam a região do Império Otomano, sem o apoio da população que vivia na região do império, na sua maioria árabes. Mas como a Inglaterra e a França conseguiram invadir sem o apoio da população? Fato é que ambos prometeram criar a Grande Arábia, um país exclusivo para os árabes. O problema foi que tal promessa era uma fraude. Uma vez na região, a Inglaterra criou o que hoje conhecemos por Palestina, Iraque e Jordânia, enquanto a França criou a Síria. Não eram países, na verdade, mas regiões demarcadas e comandadas pelas potências europeias. O interesse era o petróleo, o que passou a ser explorado à exaustão, com a chegada de empresas estrangeiras na região. Na Síria, os franceses expulsaram os sírios a patadas. Após a Segunda Guerra, os europeus deixam a região e os sírios exilados criam o Estado de Israel, que não foi reconhecido pelos seus vizinhos. Com a saída dos britânicos da região, esses estados vizinhos começam a atacar o Estado de Israel e a região vira um caos de intolerância. Com a saída da França, na Síria surge a luta pelo poder e inúmeros golpes de estado. Foi então que, algumas décadas depois, surge o Baaz, uma ideologia que mistura o sonho antigo de uma única nação árabe, com ideias socialistas e a formação de uma nação laica (sem religião dominante). As disputas então se desdobram na região, surgem mais povos nessa disputa: xiitas, sunitas, curdos e os braços radicais do islamismo, com a Al-Qaeda e, por fim, o Estado Islâmico, que hoje faz frente na Guerra Civil na Síria e semeia uma discórdia generalizada. Os grupos islâmicos radicais do terror surgem imbuídos de um regaste histórico movido pela religião, cultura e poder. O ódio ao ocidente é motivado pelo domínio europeu ocorrido há mais de 600 anos na região (talvez antes disso), com o Império Romano e, recentemente, a partir de 1916, com a Inglaterra e a França motivadas pela exploração do petróleo. A História é construída por efeitos-cascata e desdobramentos de eventos milenares. Para entender o presente é preciso conhecer o passado.
quarta-feira, 9 de abril de 2014
ENGARRAFAMENTOS (CIDADE)
Com um planejamento urbano feito, muito provavelmente, a goles de cerveja e bicadas em torresmo numa mesa de boteco, o prefeito e sua gente tocam o terror com seus desvarios políticos, visando as Olimpíadas de 2016. Para isso, demoliu viadutos, bloqueou ruas, proibiu transportes públicos de circularem no centro, mudou intinerários e paradas de ônibus sem aviso prévio nem nova sinalização, dividiu ao meio ruas e avenidas, afunilando o já impossível fluxo de carros, de modo que, de qualquer parte da cidade que se chegue ao centro, a vida pára bruscamente num engarrafamento. Assomam-se a tudo isso os inadvertidos problemas do dia-a-dia: estouro de cano na Leopoldina, vazamento de gás no Estácio, fechamento de túneis, panes em sinais de trânsito, protestos em horários do rush e os temerários tiroteios entre policiais e bandidos em plena luz do dia. Dentro dos veículos a vida passa devagar, em doses torturantes, num suplício em primeira marcha que se estende quilometros sem alteração. Verdadeiros cortejos fúnebres de carros, ônibus, caminhão e motos se criam em minutos e atravessam bairros inteiros sem luz no final do túnel nas próximas horas, ganhando contornos de pesadelo na mais perfeita desordem. A exasperação toma conta dos motoristas, inquietos e em erupção, que dirigem com a mão nas buzinas, não para pedir passagem, mas por um simples gesto de loucura. Entretanto, as eternas ambulâncias chegam de todas as partes, trazendo enfermos saculejando dentro delas, ou mesmo vazias, e cortam as filas de carros, que, sem ter para onde irem, sobem as calçadas para dar passagem à urgência médica. Carros de polícia aparecessem com a mesma frequência logo após as ambulâncias, com as suas sirenes luminosas e estridentes, não por estarem em serviço de urgência, mas pelo fato de que uma sirene é tudo o que um carro precisa para não ficar entalado num engarrafamento. Até veículos de empresas de atendimento de gás, eletricidade e reparos urbanos usam o semelhante recurso das sirenes para fugir do desespero. É impossível imaginar um mundo pacificado quando estamos presos num congestionamento. O mundo moderno se dissolve no desperdício de tempo e se transforma de volta no de uma época em que ninguém tinha pressa. O solução é fugir mentalmente para algum lugar longe dali a fim de não enlouquecer de vez; para um lugar onde a tão sonhada paz exista numa via onde tudo flui sem pânico e o mundo não pareça um jogo de vídeogame.
segunda-feira, 3 de março de 2014
BRASIL ENTRA NA ERA NEOLÍTICA (POLÍTICA)
O gigante foi acordado com uma pedrada na cabeça
e, ao levantar-ser, deu início à uma nova era para o país: o Período Neolítico.
Desde que deixamos o Período Militar Obrigatório e entramos na Era da Pseudodemocracia Capitalista, nunca vimos uma época de tantas
novidades. Veio a virada econômica do Fernando Henrique e a fase da Pedra
Lascada do Lula e sua corte de pandilheiros, carregando dinheiro onde podiam,
até em cuecas, mas colocando sabe-se lá como o gigante nos melhores drafts
econômicos mundiais. Hoje, ser a sexta economia do mundo não nos diz nada
absolutamente, nem dá ao povo benefício algum que evite protesto, porque entre
as dez mais, não há um país sequer com uma gigantesca diferença social como a
nossa, ainda dirigido por um regime plutocrata bisonho - salvo na África, onde
ele é bem comum. A sociedade também se contorce com as mudanças. Hoje Igrejas
se tornaram empresas com relatórios de lucros e prejuízos e marketing share,
produzindo riquezas astronômicas, mas continuam ditando os mesmos
comportamentos da Era A.C. A onda conservadora que embota a nossa sociedade,
retroalimentada por esse desmando religioso, já não provoca tsunamis como
antes, mas mantém o povo em marés rasas. O que se aprende não se aplica, porque
a vida moderna mudou de maneira rápida demais e as novas formas de ver e entender
a vida ainda não foram assimiladas. Por conta desta visão rupestre
generalizada, ainda se cria celeumas sobre beijos homossexuais, por exemplo.
Navegar na internet hoje é ler sobre esse beijo da novela em todas as redes de
notícias. O assunto ganhou contornos acadêmicos dramáticos, com análises
antropológicas as mais diversificadas e discussões filosóficas sobre o amor
dignas da Escola de Frankfurt e dos compêndios Jungianos/Freudianos. Bem, a
pedrada foi certeira. Agora só nos resta torcer para que essa pedra não nos
tranforme em Sísifos. Afinal de contas, estamos entrando na Era da Pedra Nova!
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014
HOJE VOU FALAR SOBRE PAZ (COMPORTAMENTO)
Uma onda de problemas típicos da cidade grande cresce na medida em que o mundo se desgoverna. Na segunda-feira passada a Linha Vermelha esteve interditada por conta de um arrastão em massa que aconteceu na primeira hora do horário do rush. Na terça, houve um grande tiroteio no morro Grajaú-Jacarepáguá entre traficantes e policiais, que alterou a rota dos ônibus no começo da noite. Na quarta, a polícia fechou o cerco na avenida Washington Luís, nos arredores do Rio, para interceptar uma quadrilha que se preparava para roubar um carro-forte e no tiroteio, seis mortos ficaram no caminho, em plena tarde carioca. Na quinta, hoje, um novo tiroteio, dessa vez no bairro de Vila Isabel, interditou a avenida que dá acesso ao morro Grajaú-Jacarepaguá por volta das sete de noite. Todos esses eventos diários envolveram dúzias de pessoas, entre poiliciais e bandidos, e outra centena desavisada de civis, que assistia a tudo passivamente, sem saber para onde ir nem o que fazer. Todos eles aconteceram no meio da vida urbana fervilhante, com a cidade se abarrotando de gente de todos os lugares, que chegam às vésperas do Carnaval. Na mesma rotina urbana, passeatas saem à ruas diariamente e o trânsito se modifica a cada dia no centro da cidade, se altera sem explicação nem aviso prévio. Ruas são fechadas em minutos e milhares de pessoas atrasam em horas a ida para o trabalho ou a volta para casa. Uma fila interminável de ônibus se aglomera todas as horas dos dias úteis na principal via de acesso ao centro e lá usuários vêem passar pela janela horas de vida inutilmente, porque preferem esperar dentro dos veículos do que se aventurar a caminhar sob o sol abrasivo deste verão inegociável, com temperaturas acima dos 40°c. Mas o Rio de Janeiro não é só tiroteios nem se resume ao seu trânsito caótico. A cidade se engarrafa por passe de mágica, a população sofre nas ruas, dentro de carros, em ônibus, trens e metrôs, mas uma nova população desembarca em hordes jamais vistas para viver esse mesmo caos, esse mesmo trânsito, essa mesma violência urbana, as mesmas passeatas de injustiçados, o mesmo calor infernal no verão da cidade maravilhosa. Nesse cenário, fica mais fácil pensar em paz, porque ela está escondida em algum lugar, no meio de tudo isso. Ela faz falta e por isso o sonho de obtê-la está sempre presente. Ela é lembrada em outdoors e estampada em camisetas, fala-se de paz na TV e nas rádios, nas rodas de conversa e nos debates políticos, surgem nas manchetes dos jornais e das revistas. A paz está em todos os lugares, nem que seja transfigurada num simples desejo ou numa moeda da sorte.
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terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
ESCREVI SOBRE O INEVITÁVEL: A COPA DO MUNDO NO BRASIL (COMPORTAMENTO)
Gente, essa coisa de fazer uma Copa do Mundo no
Brasil é uma palhaçada... Todo mundo diz que esse país é gigante, mas esse
gigante tá todo cheio de problema por dentro. Ele tem reumatismo social, pressão alta no sistema de saúde, cirrose cultural,
bipolaridade na segurança e ainda tem dupla personalidade política, que nem
terapia Gestalt dá jeito. Tá todo ferrado por dentro... é gigante no tamanho,
mas ninguém vai levar esses jogadores pra jogar no meio da Floresta Amazônica,
nas praias, nas chapadas, nos pampas, nos cafezais, nas matas atlânticas, no
meio dos pés de cana de açúcar... Não vão. Vão todos para esses estádios
milionários no orçamento e acabamento de quinta, porque os politicopatas estão
todos ricos agora, cheios de verbas desviadas. O Pelé falou que esses desvios o
turismo recupera. Ou seja, os gringos recuperam, porque os brasileiros mesmo
não recuperam nada. Eu acho(, gente,) que Copa do Mundo deveria ser feita só em
país que ocupasse, pelo menos, até a 30° posição no ranking de Renda Per Capita
no mundo, de pelo menos USD 30.000. O Brasil ocupa a 54° posição no mundo, com USD
12.789 - é uma pobreza, e ainda com uma diferença social que põe qualquer filme
de terror no chinelo. Sabe o quê? Essa Copa vai ser como o filme Jogos Mortais
I, II e III (só vai até aí, né?). Ainda bem. Mortais porque nos hospitais tem
uma penca de gente morrendo por falta de atendimento, há famílias vivendo
abaixo da linha de pobreza morrendo de fome, gente morrendo tomando bala
perdida ou direta mesmo, gente morrendo dentro dos estádios no meio da
pancadaria, gente morrendo por falta de emprego, gente morrendo no trânsito,
que é uma loucura! Então, como é que pode uma Copa ser sediada num lugar assim?
É a mesma coisa que a gente comprar uma Mercedes pra pagar com o cheque
especial. Não dá.
quarta-feira, 8 de janeiro de 2014
UMA REFORMA URGENTE (COMPORTAMENTO)
Quando o escritor gaúcho Érico Veríssimo disse
numa entrevista no começo dos anos 60 que a única reforma necessária no Brasil
seria a reforma de caráter ele não só se referia à uma necessidade do povo
brasileiro,como responsável pelos seus governantes,
como também apontava o ponto crítico da própria política brasileira. Sem
dúvida, foi uma frase atemporal, pois até hoje essa reforma ainda não foi
feita. Por outro lado, diferente da formação política brasileira, originada na
derrocada lusitana, ao tentar povoar o país com a escória portuguesa, o que nos
deixou um legado moralmente lamentável, a sociedade se salva na mistura de
raças. Um país povoado essencialmente por índios, e que importou 38% dos
escravos comercializados nas Américas, se torna, ao longo do tempo, uma nação
Iorubá mesclada com o puritanismo indígena, pois, na mesma medida em que o
Brasil adotou a alma africana, absorveu também a natureza tribal, gerando o que
hoje temos como a essência do comportamento do povo brasileiro - pacífico,
alegre, cultural, festivo, ingênuo, familiar, místico e acolhedor. Um povo
espirituoso, que gosta de festa, música, dança, comida, misticismo e da
convivialidade. Esse espírito brasileiro autêntico é ímpar e valioso. Porém, há
grandes questionamentos sobre o quanto o processo civilizatório mudaria esse
comportamento tão original e hospitaleiro do povo brasileiro. O quanto nos
tornar uma nação devidamente educada e politicamente crítica transformaria a
alma brasileira em algo mais triste e frio, como são, em regra geral, as
sociedades do primeiro mundo? Acredito que podemos unir os dois lados da moeda
através da compreensão de cidadania. Uma mudança-chave no processo socialmente
educador.
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
O Engano Neoliberal
A teoria neoliberal marcou as transformações ocorridas em escala mundial na década de 80. Os ideólogos do neoliberalismo, ou do novo liberalismo que se reeditava com base nas experiências do passado e as exigências da então economia mundial, já estavam escrevendo suas idéias desde as décadas de 50 e 60. Mas só com o fim da Guerra Fria o cenário mundial permitiu a implantação do sistema, para desespero dos países pobres e em vias de desenvolvimento.
A nova face da economia mundial, que estabelecia um retorno ao liberalismo econômico, tinha três objetivos básicos. (1) o desmonte do Estado de Bem Estar, criado com a finalidade de dar melhores condições de vida aos operários do mundo capitalista. No vácuo deste objetivo estava a intenção de anular uma possível influência comunista e o perigo de uma revolução dentro dos países capitalistas. O trem fantasma do novo sistema político mundial apresentava medidas drásticas contra a classe assalariada, como cortes de direitos conquistados, da previdência social, de salários, sistemas de saúde, de educação. Tudo passou a ser considerado como despesas do Estado que precisavam ser cortadas para baixar o custo da produção, aumentar o lucro burguês e capitalizar a economia dos países. (2) a redução da participação do Estado na vida econômica dos países, feita através de um programa de desestatização com a venda de empresas estatais, incluindo aquelas com recursos considerados estratégicos, para a iniciativa privada e grupos transnacionais. E (3) a abertura das economias em desenvolvimento para os produtos dos países desenvolvidos e o fim das barreiras alfandegárias, o que possibilitava a livre circulação das mercadorias por diversos países.
Não demorou para que os países começassem a cumprir as orientações norte-americanas e entrassem num processo de venda de todo o patrimônio público, conquistado pela luta de várias gerações antecedentes. O Brasil foi um desses países. Ao final do grande saldão das empresas estatais, os países continuaram endividados e sem ter como investir em seu crescimento e desenvolvimento. Nações em desenvolvimento, como o Brasil, não tiveram outra opção além de pedir empréstimos ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial, numa tentativa desesperada de reerguer suas economias. Foi assim que a instituição financeira passou a controlar as condições para os empréstimos e as metas de crescimento econômico, condição para a negociação e a obtenção do dinheiro. Com os países em desenvolvimento endividados e amarrados ao FMI, a nova realidade gerou cortes nas verbas da educação, da saúde, do sistema previdenciário e afetou também a criação de empregos e gerou recessões calamitosas, diferenças sociais, aumento da violência, da criminalidade, a destruição de famílias inteiras nos países pobres e por fim a derrocada das economias.
As consequências do neoliberalismo foram tão drásticas que o conceito de Estado-nação, fundamentado na autodeterminação dos povos e na autonomia dos países, entrou em colapso. Na nova conjuntura, não são mais os governos nacionais que decidem a forma de desenvolvimento dos seus países, mas os especuladores e financistas americanos, que passaram a determinar o destino de milhões de pessoas. Isso fazia com que os países perdessem sua capacidade de investimento e de resolução dos seus problemas sociais, que cresciam em proporções aladas. No Brasil, o governo passou a buscar meios para corrigir suas diferenças sociais e encontrou respaldo na criação de leis baseadas no que foi chamado de ações afirmativas, as quais visavam corrigir o tratamento desigual criado na sociedade.
Após o primeiro tsunami neoliberal no mundo nos anos 80 e os primeiros respingos dessa onda no Brasil recebidos no governo Collor, Fernando Henrique Cardoso assumiu a presidência em 1995 com a cartilha neoliberal debaixo do braço, a popularidade em alta e sem oposição relevante além daquela que havia derrotado nas últimas eleições. Ele retornou às privatizações iniciadas por Collor, com a intenção de promover um Estado mínimo, contrariou seu passado de esquerda, com o pretexto de que o mundo havia mudado, e, com isso, atualizou suas idéias de se fazer política. O programa de privatizações de FHC superou em muito o de seus antecessores. Enquanto a oposição acusava o governo de vender o país a preços promocionais, o governo, por sua vez, defendia-se com a desculpa de que as estatais só davam prejuízo e aumentavam a dívida pública, de maneira que vendê-las ia trazer dinheiro para os investimentos necessários na educação, saúde e infra-estrutura. Mas o processo de racionalização iniciado por Collor deu seus frutos mais amargos no período de FHC. A modernização e mecanização dos meios de produção extinguiam-se ao invés de criar postos de trabalho. O desemprego em seus dois governos nunca sofreu queda e o dinheiro da venda das estatais foi usado para amortizar os juros das dívidas internas e externas, que continuavam a crescer. Da intenção de alocar investimentos para a educação, saúde e infra-estrutura sobraram apenas cortes nos orçamentos destinados a essas áreas. A venda das estatais acabou por tirar do governo a condição de investir e fomentar o crescimento do país e a maior prova da falta de investimentos de recursos aconteceu no final do governo, quando houve a crise de abastecimento de energia, provocando falta e racionamento de energia elétrica em todo o país, no período conhecido por apagão.
FHC pode ter assentado as bases para a consolidação da economia ainda sob os efeitos promissores do Plano Real e de outras realizações importantes do seu governo, como a Lei de Responsabilidade Fiscal, criada com o objetivo de conter os gastos nas administrações públicas e punir os abusos feitos com o dinheiro público. Mas o país agonizava quando Lula assumiu o poder em 2003, sem a maioria no Congresso Nacional. O país então sofria com um enorme desemprego, uma economia entrando em recessão, com o risco da volta da inflação, uma dívida pública imensa e milhares de famílias brasileiras vivendo abaixo da linha da pobreza. Eis a herança do FHC! Os recursos do país haviam sido reduzidos a quase zero, uma vez que os investidores internacionais estavam temerosos com a eleição do Lula e pararam de aplicar dinheiro por aqui até que a poeira baixasse e eles pudessem ver melhor quem era o matutão, ex-sindicalista, quase analfabeto que estava então assumindo o poder.

A herança neoliberal, um imenso cavalo de tróia para a gestão Lula, queria o fim do Estado-empresário. Para os neoliberais, as economias não crescem porque os impostos sufocam os empresários e os impedem de investirem seus recursos na economia, o que, consequentemente, impede o crescimento econômico. Assim, o desemprego assolapa as esperanças dos trabalhadores por uma vida melhor, restando apenas o sonho de que um dia, quem sabe, o país volte a crescer independentemente da existência de um estado de bem estar. O caminho do neoliberalismo foi bastante facilitado, porque, naquele momento, o mundo vivia uma crise de identidade. As democracias latino-americanas adotaram o modelo neoliberal porque sua história de dependência econômica não as permitiu recusar o modelo indicado pelos organismos financeiros internacionais. O problema é que sociedades com graves questões de distribuição de renda e com uma população marcada por privações, de uma hora para outra, perderam o auxílio que os governos lhes concediam. O desemprego, o arrocho salarial e a falta de perspectivas de melhorias na condião de vida fizeram com que um grande número de pessoas dos países pobres buscasse atividades ilegais, informais e até criminosas como meio de sobrevivência.
A globalização tem os seus percalços drásticos em sociedades como a nossa. Não podemos destituir do atual governo, entretanto, o mérito de ter feito o país crescer economicamente desde 2004, a partir desse quadro calamitoso, e também de ter criado benefícios para as camadas mais pobres da população, mesmo que isso tenha significado tarefa da consolação, criando dependência finaceira e uma estrada para a corrupção nos órgãos públicos responsáveis pela distribuição de recursos. Uma pena que essa mesma estrada tenha extrapolado todos os limites legalmente, e eticamente, possíveis e criado a má impressão deixada por sucessivos escândalos. Mas o que nos resta agora além de dois candidatos fadados à presidência que, de alguma forma, parecem perdidos nessa estrada incerta ainda pavimentada com os remendos neoliberais? Paciência. A resposta só teremos daqui a quatro anos.
A nova face da economia mundial, que estabelecia um retorno ao liberalismo econômico, tinha três objetivos básicos. (1) o desmonte do Estado de Bem Estar, criado com a finalidade de dar melhores condições de vida aos operários do mundo capitalista. No vácuo deste objetivo estava a intenção de anular uma possível influência comunista e o perigo de uma revolução dentro dos países capitalistas. O trem fantasma do novo sistema político mundial apresentava medidas drásticas contra a classe assalariada, como cortes de direitos conquistados, da previdência social, de salários, sistemas de saúde, de educação. Tudo passou a ser considerado como despesas do Estado que precisavam ser cortadas para baixar o custo da produção, aumentar o lucro burguês e capitalizar a economia dos países. (2) a redução da participação do Estado na vida econômica dos países, feita através de um programa de desestatização com a venda de empresas estatais, incluindo aquelas com recursos considerados estratégicos, para a iniciativa privada e grupos transnacionais. E (3) a abertura das economias em desenvolvimento para os produtos dos países desenvolvidos e o fim das barreiras alfandegárias, o que possibilitava a livre circulação das mercadorias por diversos países.
Não demorou para que os países começassem a cumprir as orientações norte-americanas e entrassem num processo de venda de todo o patrimônio público, conquistado pela luta de várias gerações antecedentes. O Brasil foi um desses países. Ao final do grande saldão das empresas estatais, os países continuaram endividados e sem ter como investir em seu crescimento e desenvolvimento. Nações em desenvolvimento, como o Brasil, não tiveram outra opção além de pedir empréstimos ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial, numa tentativa desesperada de reerguer suas economias. Foi assim que a instituição financeira passou a controlar as condições para os empréstimos e as metas de crescimento econômico, condição para a negociação e a obtenção do dinheiro. Com os países em desenvolvimento endividados e amarrados ao FMI, a nova realidade gerou cortes nas verbas da educação, da saúde, do sistema previdenciário e afetou também a criação de empregos e gerou recessões calamitosas, diferenças sociais, aumento da violência, da criminalidade, a destruição de famílias inteiras nos países pobres e por fim a derrocada das economias.
As consequências do neoliberalismo foram tão drásticas que o conceito de Estado-nação, fundamentado na autodeterminação dos povos e na autonomia dos países, entrou em colapso. Na nova conjuntura, não são mais os governos nacionais que decidem a forma de desenvolvimento dos seus países, mas os especuladores e financistas americanos, que passaram a determinar o destino de milhões de pessoas. Isso fazia com que os países perdessem sua capacidade de investimento e de resolução dos seus problemas sociais, que cresciam em proporções aladas. No Brasil, o governo passou a buscar meios para corrigir suas diferenças sociais e encontrou respaldo na criação de leis baseadas no que foi chamado de ações afirmativas, as quais visavam corrigir o tratamento desigual criado na sociedade.
Após o primeiro tsunami neoliberal no mundo nos anos 80 e os primeiros respingos dessa onda no Brasil recebidos no governo Collor, Fernando Henrique Cardoso assumiu a presidência em 1995 com a cartilha neoliberal debaixo do braço, a popularidade em alta e sem oposição relevante além daquela que havia derrotado nas últimas eleições. Ele retornou às privatizações iniciadas por Collor, com a intenção de promover um Estado mínimo, contrariou seu passado de esquerda, com o pretexto de que o mundo havia mudado, e, com isso, atualizou suas idéias de se fazer política. O programa de privatizações de FHC superou em muito o de seus antecessores. Enquanto a oposição acusava o governo de vender o país a preços promocionais, o governo, por sua vez, defendia-se com a desculpa de que as estatais só davam prejuízo e aumentavam a dívida pública, de maneira que vendê-las ia trazer dinheiro para os investimentos necessários na educação, saúde e infra-estrutura. Mas o processo de racionalização iniciado por Collor deu seus frutos mais amargos no período de FHC. A modernização e mecanização dos meios de produção extinguiam-se ao invés de criar postos de trabalho. O desemprego em seus dois governos nunca sofreu queda e o dinheiro da venda das estatais foi usado para amortizar os juros das dívidas internas e externas, que continuavam a crescer. Da intenção de alocar investimentos para a educação, saúde e infra-estrutura sobraram apenas cortes nos orçamentos destinados a essas áreas. A venda das estatais acabou por tirar do governo a condição de investir e fomentar o crescimento do país e a maior prova da falta de investimentos de recursos aconteceu no final do governo, quando houve a crise de abastecimento de energia, provocando falta e racionamento de energia elétrica em todo o país, no período conhecido por apagão.
FHC pode ter assentado as bases para a consolidação da economia ainda sob os efeitos promissores do Plano Real e de outras realizações importantes do seu governo, como a Lei de Responsabilidade Fiscal, criada com o objetivo de conter os gastos nas administrações públicas e punir os abusos feitos com o dinheiro público. Mas o país agonizava quando Lula assumiu o poder em 2003, sem a maioria no Congresso Nacional. O país então sofria com um enorme desemprego, uma economia entrando em recessão, com o risco da volta da inflação, uma dívida pública imensa e milhares de famílias brasileiras vivendo abaixo da linha da pobreza. Eis a herança do FHC! Os recursos do país haviam sido reduzidos a quase zero, uma vez que os investidores internacionais estavam temerosos com a eleição do Lula e pararam de aplicar dinheiro por aqui até que a poeira baixasse e eles pudessem ver melhor quem era o matutão, ex-sindicalista, quase analfabeto que estava então assumindo o poder.

A herança neoliberal, um imenso cavalo de tróia para a gestão Lula, queria o fim do Estado-empresário. Para os neoliberais, as economias não crescem porque os impostos sufocam os empresários e os impedem de investirem seus recursos na economia, o que, consequentemente, impede o crescimento econômico. Assim, o desemprego assolapa as esperanças dos trabalhadores por uma vida melhor, restando apenas o sonho de que um dia, quem sabe, o país volte a crescer independentemente da existência de um estado de bem estar. O caminho do neoliberalismo foi bastante facilitado, porque, naquele momento, o mundo vivia uma crise de identidade. As democracias latino-americanas adotaram o modelo neoliberal porque sua história de dependência econômica não as permitiu recusar o modelo indicado pelos organismos financeiros internacionais. O problema é que sociedades com graves questões de distribuição de renda e com uma população marcada por privações, de uma hora para outra, perderam o auxílio que os governos lhes concediam. O desemprego, o arrocho salarial e a falta de perspectivas de melhorias na condião de vida fizeram com que um grande número de pessoas dos países pobres buscasse atividades ilegais, informais e até criminosas como meio de sobrevivência.
A globalização tem os seus percalços drásticos em sociedades como a nossa. Não podemos destituir do atual governo, entretanto, o mérito de ter feito o país crescer economicamente desde 2004, a partir desse quadro calamitoso, e também de ter criado benefícios para as camadas mais pobres da população, mesmo que isso tenha significado tarefa da consolação, criando dependência finaceira e uma estrada para a corrupção nos órgãos públicos responsáveis pela distribuição de recursos. Uma pena que essa mesma estrada tenha extrapolado todos os limites legalmente, e eticamente, possíveis e criado a má impressão deixada por sucessivos escândalos. Mas o que nos resta agora além de dois candidatos fadados à presidência que, de alguma forma, parecem perdidos nessa estrada incerta ainda pavimentada com os remendos neoliberais? Paciência. A resposta só teremos daqui a quatro anos.
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
O Fardo da Beatificação
Algumas figuras no cenário político brasileiro tiveram ao longo da história um respaldo popular tão fiel que se eternizaram não apenas por suas conquistas governamentais, mas, sobretudo, pelos benefícios da condição de mito criado em torno dos seus nomes.
De Getúlio Vargas a Lula, a construção do mito pela devoção popular gerou, entretanto, mais equívocos e engodos do que mártires ilibados. Em presidentes como Jânio Quadros e Collor de Mello, por exemplo, vê-se a construção equivocada do mito ou santo. Essa vulnerabilidade herdada da religião e aplicada na política é uma crença de risco e coloca, às vesperas de mais uma eleição nacional, a questão filosófica do homem na busca perene por um salvador. Não seria exagerado comparar tal devoção àquela que se tem por ditadores como Fidel Castro de Cuba e Kim Jong il da Coréia do Norte, ou mesmo por aspirantes à ditadura como Hugo Chávez da Venezuela, em que o respeito passa a ser adoração. Afinal de contas, eles são governantes onipotentes e onipresentes, que paternizam com mão de ferro uma prole que precisa incontinenti das ordens de um comandante para caminhar, posto que ainda é incapaz de pensar sem o julgo de um líder absoluto. Talvez política e religião tenham aqui o seu ponto de confluência, uma vez que a síndrome do divino se revela na política com a mesma dependência beatifícia dos fiéis seguidores, criando, assim, para esses políticos, o papel de intercessor com o criador.
Os créditos conquistados com algumas benfeitorias populares pontuais são indeléveis para os comandados amauróticos. A massa crítica padece diante das promessas políticas na falta de uma atualização da imagem e em detrimento da postura de se buscar o melhor para todos. Mas sejamos sensatos: não podemos esperar do outro aquilo que o outro não pode nos dar. Enquanto a vulnerabilidade humana, que ainda anseia por vantagens individuais, descaracteriza o coletivo e reparte a humanidade em fragmentos conscienciais, só nos resta respeitar os limites generalizados e procurar fazer a nossa parte para o coletivo: ensinando e compartilhando ideias. Contudo, a tentativa de investigar a raiz de tal devoção na política pode gerar massa crítica em âmbito coletivo. Questionar a razão que faz a maioria do povo brasileiro tomar por divina a imagem de um presidente e ser fiel não apenas ao seu caudilho, mas a todo e qualquer um que este endorse seu apoio é um desafio construtivo. Afinal de contas, temos que nos preparar psicologicamente para uma era de governo do avatar do Lula, Dilma Rousseff.
Em época de eleição, na mesma medida em que a devoção popular por seus mitos e santos se fortalece diante dos arroubos dos palanques, nos cultos acalorados dos comícios, os políticos se empenham em chacoalhar a borra no fundo do copo do outro e a imprensa corre desesperadamente para alertar à população a não confundir essa borra com polpa de fruta. A recente história de Erenice Guerra é uma evidência disso. Erenice escalou o topo da República, levada pela mão de Dilma Rousseff, saindo da obscuridade numa diligência impensável. Não tardou muito e foi agraciada com o posto de fiel escuderia de Dilma. Ao tornar-se uma seguidora leal, absorveu prontamente o seu modus operandi e montou ela mesma o dossiê FHC na Casa Civil. Ainda sob as deconfianças de funcionária suspeita, passou ao posto de ministra, encarnando uma representação inconteste de Dilma Rousseff.
Porém, apesar de todo o escândalo há poucos dias revelado, dando conta de que um sócio do filho de Erenice achou R$ 200 mil em dinheiro em seu gabinete na Casa Civil e mesmo depois que a imprensa espalhou a notícia de que o marido de Erenice era diretor de uma empresa que ganhou o aval do governo para disputar e ganhar um negócio de R$ 100 milhões na telefonia celular, apesar do governo ter atestado que a empresa dele não tinha estrutura para o negócio, o povo continua achando que Erenice é apenas uma boa mãe e esposa fiel, deixando Dilma ilesa diante de toda essas maledicências políticas inaceitáveis. O caso de Erenice não deveria causar na opinião pública ao menos um minuto de reflexão? Parece que não, uma vez que o nosso presidente-pastor disse dias atrás, num comício petista em Campinas, que "nós (do governo) somos a opinião pública."Impressionante.
Mas como todo e bom santo sofre de vicissitudes no irremediável restringimento físico, o presidente não foge à regra. Com 84% de popularidade, segundo às últimas pesquisas de opinião, a frase do presidente não parece um desvario (será que nessas pesquisas os votos brancos e nulos contam a favor do governo?). Bem, não vamos tornar a nossa análise mais complexa do que ela já parece ser. Restam apenas 16% da população para dar ao presidente uma condição de santidade maior do que a teve e ainda tem Jesus Cristo para seus fiéis seguidores cristãos há 2010 anos! - posto que Jesus não conseguiu, ao longo desse tempo, conquistar a unanimidade. Parece inacreditável que, aos olhos do povo, essa popularidade lulista só tenha subido ao longo dos últimos anos. A conclusão desafortunada desta triste reflexão é a de que as únicas reformas imperativas e urgentes parecem longe de acontecer, pois elas nada mais são do que as reformas de caráter por parte dos políticos e de lucidez e discernimento por parte da população.
Ao escolhermos os nossos governantes não podemos endorsar a esperteza e o sucesso a qualquer custo, apoiar aqueles que destestam o trabalho social, que buscam o acesso ao patrimônio público para proveito pessoal, que almejam os cabides de emprego e os cargos fantasmas, que criam infindáveis dinastias nos cargos públicos, que valorizam a justiça só quando a justiça lhes é vantajosa, que só reclamam dos privilégios quando não estão incluídos entre os privilegiados, que enriquecem através dos negócios sujos com o Estado, que vendem seus votos por uma camiseta, uma dentadura ou o benefício do bolsa família, que são incapazes de refletir, comover-se e indignar-se diante das infâmias cometidas contra aqueles que realmente precisam do apoio do Estado na saúde, na educação e na segurança, que é a camada mais pobre e humanamente dependente dos órgãos federais. Não há contra-indicações no ato de refletir. A atitude de cada um em benefício de todos é assistencialidade na prática em alto nível.
De Getúlio Vargas a Lula, a construção do mito pela devoção popular gerou, entretanto, mais equívocos e engodos do que mártires ilibados. Em presidentes como Jânio Quadros e Collor de Mello, por exemplo, vê-se a construção equivocada do mito ou santo. Essa vulnerabilidade herdada da religião e aplicada na política é uma crença de risco e coloca, às vesperas de mais uma eleição nacional, a questão filosófica do homem na busca perene por um salvador. Não seria exagerado comparar tal devoção àquela que se tem por ditadores como Fidel Castro de Cuba e Kim Jong il da Coréia do Norte, ou mesmo por aspirantes à ditadura como Hugo Chávez da Venezuela, em que o respeito passa a ser adoração. Afinal de contas, eles são governantes onipotentes e onipresentes, que paternizam com mão de ferro uma prole que precisa incontinenti das ordens de um comandante para caminhar, posto que ainda é incapaz de pensar sem o julgo de um líder absoluto. Talvez política e religião tenham aqui o seu ponto de confluência, uma vez que a síndrome do divino se revela na política com a mesma dependência beatifícia dos fiéis seguidores, criando, assim, para esses políticos, o papel de intercessor com o criador.
Os créditos conquistados com algumas benfeitorias populares pontuais são indeléveis para os comandados amauróticos. A massa crítica padece diante das promessas políticas na falta de uma atualização da imagem e em detrimento da postura de se buscar o melhor para todos. Mas sejamos sensatos: não podemos esperar do outro aquilo que o outro não pode nos dar. Enquanto a vulnerabilidade humana, que ainda anseia por vantagens individuais, descaracteriza o coletivo e reparte a humanidade em fragmentos conscienciais, só nos resta respeitar os limites generalizados e procurar fazer a nossa parte para o coletivo: ensinando e compartilhando ideias. Contudo, a tentativa de investigar a raiz de tal devoção na política pode gerar massa crítica em âmbito coletivo. Questionar a razão que faz a maioria do povo brasileiro tomar por divina a imagem de um presidente e ser fiel não apenas ao seu caudilho, mas a todo e qualquer um que este endorse seu apoio é um desafio construtivo. Afinal de contas, temos que nos preparar psicologicamente para uma era de governo do avatar do Lula, Dilma Rousseff.
Em época de eleição, na mesma medida em que a devoção popular por seus mitos e santos se fortalece diante dos arroubos dos palanques, nos cultos acalorados dos comícios, os políticos se empenham em chacoalhar a borra no fundo do copo do outro e a imprensa corre desesperadamente para alertar à população a não confundir essa borra com polpa de fruta. A recente história de Erenice Guerra é uma evidência disso. Erenice escalou o topo da República, levada pela mão de Dilma Rousseff, saindo da obscuridade numa diligência impensável. Não tardou muito e foi agraciada com o posto de fiel escuderia de Dilma. Ao tornar-se uma seguidora leal, absorveu prontamente o seu modus operandi e montou ela mesma o dossiê FHC na Casa Civil. Ainda sob as deconfianças de funcionária suspeita, passou ao posto de ministra, encarnando uma representação inconteste de Dilma Rousseff.
Porém, apesar de todo o escândalo há poucos dias revelado, dando conta de que um sócio do filho de Erenice achou R$ 200 mil em dinheiro em seu gabinete na Casa Civil e mesmo depois que a imprensa espalhou a notícia de que o marido de Erenice era diretor de uma empresa que ganhou o aval do governo para disputar e ganhar um negócio de R$ 100 milhões na telefonia celular, apesar do governo ter atestado que a empresa dele não tinha estrutura para o negócio, o povo continua achando que Erenice é apenas uma boa mãe e esposa fiel, deixando Dilma ilesa diante de toda essas maledicências políticas inaceitáveis. O caso de Erenice não deveria causar na opinião pública ao menos um minuto de reflexão? Parece que não, uma vez que o nosso presidente-pastor disse dias atrás, num comício petista em Campinas, que "nós (do governo) somos a opinião pública."Impressionante.
Mas como todo e bom santo sofre de vicissitudes no irremediável restringimento físico, o presidente não foge à regra. Com 84% de popularidade, segundo às últimas pesquisas de opinião, a frase do presidente não parece um desvario (será que nessas pesquisas os votos brancos e nulos contam a favor do governo?). Bem, não vamos tornar a nossa análise mais complexa do que ela já parece ser. Restam apenas 16% da população para dar ao presidente uma condição de santidade maior do que a teve e ainda tem Jesus Cristo para seus fiéis seguidores cristãos há 2010 anos! - posto que Jesus não conseguiu, ao longo desse tempo, conquistar a unanimidade. Parece inacreditável que, aos olhos do povo, essa popularidade lulista só tenha subido ao longo dos últimos anos. A conclusão desafortunada desta triste reflexão é a de que as únicas reformas imperativas e urgentes parecem longe de acontecer, pois elas nada mais são do que as reformas de caráter por parte dos políticos e de lucidez e discernimento por parte da população.
Ao escolhermos os nossos governantes não podemos endorsar a esperteza e o sucesso a qualquer custo, apoiar aqueles que destestam o trabalho social, que buscam o acesso ao patrimônio público para proveito pessoal, que almejam os cabides de emprego e os cargos fantasmas, que criam infindáveis dinastias nos cargos públicos, que valorizam a justiça só quando a justiça lhes é vantajosa, que só reclamam dos privilégios quando não estão incluídos entre os privilegiados, que enriquecem através dos negócios sujos com o Estado, que vendem seus votos por uma camiseta, uma dentadura ou o benefício do bolsa família, que são incapazes de refletir, comover-se e indignar-se diante das infâmias cometidas contra aqueles que realmente precisam do apoio do Estado na saúde, na educação e na segurança, que é a camada mais pobre e humanamente dependente dos órgãos federais. Não há contra-indicações no ato de refletir. A atitude de cada um em benefício de todos é assistencialidade na prática em alto nível.
terça-feira, 28 de setembro de 2010
Um Minuto e Quatorze Segundos de Silêncio
Leandro Santos de Paula (18), é morador do conjunto habitacional Nelson Mandela, na Zona Norte do Rio de Janeiro, região pobre conhecida como Faixa de Gaza carioca.
No ano passado, Sérgio Cabral e a então secretária de Ação Social do Rio, Benedita da Silva, apareceram em seu bairro. A visita era para comemorar um projeto habitacinal que combina entrega de notebooks para famílias carentes. Leandro não estava inscrito no programa, mas resolveu pedir um notebook para ele mesmo assim. Segundo Leandro, Sérgio Cabral prometeu entregar o seu notebook. Porém, como nenhum computador apareceu, ele resolveu cobrar. Para isso, muniu-se de uma camera de vídeo e gravou as suas cobranças. Em dezembro do ano passado, Leandro ficou sabendo que Cabral e Lula fariam uma visita em Manguinhospara inaugurar um complexo esportivo. Com sua camera, ele resolveu comparecer e acabou gravando uma conversa muito mais reveladora, pois os políticos não sabiam que estavam sendo filmados. Aqui, não havia o filtro dos assessores, a diplomacia epidérmica dos discursos oficiais, os cuidados com a imagem, nem os textos das entrevistas para a imprensa. Aqui, havia somente um garoto da classe pobre cobrando ao governador do estado e ao presidente do país algo que lhe foi prometido.
Texto: Revista Época, edição 639, 16 de agosto de 2010, páginas 13-14; Vídeo: YouTube (http://www.youtube.com/watch?v=Vzg0_kSsJFc&feature=related), cedido pelo Blog do Ricardo Gama.
No ano passado, Sérgio Cabral e a então secretária de Ação Social do Rio, Benedita da Silva, apareceram em seu bairro. A visita era para comemorar um projeto habitacinal que combina entrega de notebooks para famílias carentes. Leandro não estava inscrito no programa, mas resolveu pedir um notebook para ele mesmo assim. Segundo Leandro, Sérgio Cabral prometeu entregar o seu notebook. Porém, como nenhum computador apareceu, ele resolveu cobrar. Para isso, muniu-se de uma camera de vídeo e gravou as suas cobranças. Em dezembro do ano passado, Leandro ficou sabendo que Cabral e Lula fariam uma visita em Manguinhospara inaugurar um complexo esportivo. Com sua camera, ele resolveu comparecer e acabou gravando uma conversa muito mais reveladora, pois os políticos não sabiam que estavam sendo filmados. Aqui, não havia o filtro dos assessores, a diplomacia epidérmica dos discursos oficiais, os cuidados com a imagem, nem os textos das entrevistas para a imprensa. Aqui, havia somente um garoto da classe pobre cobrando ao governador do estado e ao presidente do país algo que lhe foi prometido.
Texto: Revista Época, edição 639, 16 de agosto de 2010, páginas 13-14; Vídeo: YouTube (http://www.youtube.com/watch?v=Vzg0_kSsJFc&feature=related), cedido pelo Blog do Ricardo Gama.
sábado, 18 de setembro de 2010
A Consciência do Voto
Com a aproximação da data das eleições este ano, a avalanche de promessas só é comparada à de denúncias a alguns dos candidatos políticos, restando a velha e boa pergunta: em quem posso confiar ? A priori, todo candidato deveria apresentar um curriculum de realizações e formação política, seu passado e sua conduta expressos abertamente a todos de forma a corroborar com aquilo a que ele se propõe. Isso certamente eliminaria um bom número deles, pois, nessa época, não há nada mais divertido do que assistir ao horário eleitoral. O que faz a grande maioria daqueles candidatos julgar que são capazes de assumir cargos políticos para exercer tão somente a representação das necessidades e anseios da sociedade ?
Lamentavelmente, a impressão que se tem é a de que, em geral, o político brasileiro realmente luta para conquistar ou manter o poder, viver de mordomias e despesas pagas e pegar a sua fatia da grande pizza propineira, tendo apenas como compromisso fazer aqui e ali algumas propostas políticas estratégicas como forma de marketing pessoal para servir de ponte para o próximo mandato, visto que os problemas se repetem, as necessidades da sociedade são as mesmas e as promessas nunca foram plenamente cumpridas. O mais sério a refletir, entretanto, antes de decidirmos a quem dar o nosso voto, é sobre a veracidade das informações de abuso de poder, corrupção e mal prática política de alguns candidatos, sobretudo, aqueles que concorrem a cargos presidenciais, governamentais e congressistas.
Esta semana surgiu na internet o texto de Arnaldo Jabor, publicado no site da CBN e mais tarde retirado por ordem do presidente Lula. A jornalista Dora Kramer comentou o fato no jornal Estadão de domingo. “A decisão do TSE que determinou a retirada do comentário de Arnaldo Jabor do site da CBN, a pedido do presidente 'Lula,' até pode ter amparo na legislação eleitoral, mas fere o preceito constitucional da liberdade de imprensa.” Abaixo, leia o texto de Jabor na íntegra.
A Verdade Está na Cara, Mas Não se Impõe – Arnaldo Jabor
O que foi que nos aconteceu? No Brasil, estamos diante de acontecimentos inexplicáveis, ou melhor, 'explicáveis' demais. Toda a verdade já foi descoberta, todos os crimes provados, todas as mentiras percebidas. Tudo já aconteceu e nada acontece. Os culpados estão catalogados, fichados, e nada rola. A verdade está na cara, mas a verdade não se impõe. Isto é uma situação inédita na História brasileira! Claro que a mentira sempre foi a base do sistema político, infiltrada no labirinto das oligarquias, mas nunca a verdade foi tão límpida à nossa frente e, no entanto, tão inútil, impotente, desfigurada!
Os fatos reais: com a eleição de Lula, uma quadrilha se enfiou no governo e desviou bilhões de dinheiro público para tomar o Estado e ficar no poder 20 anos! Os culpados são todos conhecidos, tudo está decifrado, os cheques assinados, as contas no estrangeiro, os tapes, as provas irrefutáveis, mas o governo psicopata de Lula nega e ignora tudo! Questionado ou flagrado, o psicopata não se responsabiliza por suas ações. Sempre se acha inocente ou vítima do mundo, do qual tem de se vingar. O outro não existe para ele e não sente nem remorso nem vergonha do que faz!
Mente compulsivamente, acreditando na própria mentira, para conseguir poder. Este governo é psicopata!!! Seus membros riem da verdade, viram-lhe as costas, passam-lhe a mão nas nádegas. A verdade se encolhe, humilhada, num canto. E o pior é que o Lula, amparado em sua imagem de 'povo', consegue transformar a Razão em vilã, as provas contra ele em acusações 'falsas', sua condição de cúmplice e Comandante em 'vítima'! E a população ignorante engole tudo... Como é possível isso?
Simples: o Judiciário paralítico entoca todos os crimes na Fortaleza da lentidão e da impunidade. Só daqui a dois anos serão julgados os indiciados - nos comunica o STF. Os delitos são esquecidos, empacotados, prescrevem. A Lei protege os crimes e regulamenta a própria desmoralização Jornalistas e formadores de opinião sentem-se inúteis, pois a indignação ficou supérflua. O que dizemos não se escreve, o que escrevemos não se finca, tudo quebra diante do poder da mentira desse governo.
Sei que este é um artigo óbvio, repetitivo, inútil, mas tem de ser escrito...
Está havendo uma desmoralização do pensamento. Deprimo-me: Denunciar para quê, se indignar com quê? Fazer o quê?' A existência dessa estirpe de mentirosos está dissolvendo a nossa língua. Este neocinismo está a desmoralizar as palavras, os raciocínios. A língua portuguesa, os textos nos jornais, nos blogs, na TV, rádio, tudo fica ridículo diante da ditadura do lulo-petismo. A cada cassado perdoado, a cada negação do óbvio, a cada testemunha, muda, aumenta a sensação de que as idéias não correspondem mais Aos fatos!
Pior: que os fatos não são nada - só valem as versões, as manipulações. No último ano, tivemos um único momento de verdade, louca, operística, grotesca, mas maravilhosa, quando o Roberto Jefferson abriu a cortina do país e deixou-nos ver os intestinos de nossa política. Depois surgiram dois grandes documentos históricos: o relatório da CPI dos Correios e o parecer do procurador-geral da república. São verdades cristalinas, com sol a Pino. E, no entanto, chegam a ter um sabor quase de 'gafe'.
Lulo-Petistas clamam: 'Como é que a Procuradoria Geral, nomeada pelo Lula, tem o desplante de ser tão clara! Como que o Osmar Serraglio pode ser tão explícito, e como o Delcídio Amaral não mentiu em nome do PT ? Como ousaram ser honestos?' Sempre que a verdade eclode, reagem. Quando um juiz condena rápido, é chamado de exibicionista'. Quando apareceu aquela grana toda no Maranhão (lembram, filhinhos?), a família Sarney reagiu ofendida com a falta de 'finesse' do governo de FH, que não teve a delicadeza de avisar que a polícia estava chegando...
Mas agora é diferente. As palavras estão sendo esvaziadas de sentido. Assim como o stalinismo apagava fotos, reescrevia textos para contestar seus crimes, o governo do Lula está criando uma língua nova, uma neo-língua empobrecedora da ciência política, uma língua esquemática, dualista, maniqueísta, nos preparando para o futuro político simplista que está se consolidando no horizonte. Toda a complexidade rica do país será transformada em uma massa de palavras de ordem , de preconceitos ideológicos movidos a dualismos e oposições, como tendem a fazer o Populismo e o simplismo.
Lula será eleito por uma oposição mecânica entre ricos e pobres, dividindo o país em 'a favor' do povo e 'contra', recauchutando significados que não dão mais conta da circularidade do mundo atual. Teremos o 'sim' e o 'não', teremos a depressão da razão de um lado e a psicopatia política de outro, teremos a volta da oposição Mundo x Brasil, nacional x internacional e um voluntarismo que legitima o governo de um Lula 2 e um Garotinho depois. Alguns otimistas dizem: 'Não... este maremoto de mentiras nos dará uma fome de Verdades'!
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